Este é o mantra repetido tomada após tomada no templo de Quentin. Ele é o guru, e o elenco, seus devotos. Um clima religiosamente imposto por esse cara que, na época em que servia de balconista de locadora, aparentemente deu um jeito de colar todo o acervo de fitas em sua cabeça, então tornou-se uma enciclopédia ambulante, memorizando detalhes de filmes B dos quais quase nenhuma viv'alma recorda-se, ou seja, nosso futuro cineasta era apontado como um sem-vida social em sua tenra idade. Mas quem liga? Hoje somos só aplausos. Pois sua compulsão megalomaníaca por filmes e sua criatividade ensandecida casaram-se cedo, gerando alguns filhos de muito sucesso, são estes "Pulp Fiction" e "Kill Bill 1 e 2"; uns bons, mas não tão lembrados, "Cães de Aluguel", "Prova de Morte"; e alguns bastardinhos, é o caso de "Jackie Brown" e "Drink no Inferno" (deste ele nem é o verdadeiro pai, mas influenciou bastante na criação). No entanto, para não ser injusta com a prole, cabe dizer que El Capitano colocou muito amor em cada um deles, o amor incondicional à 7ª Arte.
E não foi diferente com o recém nascido. Foi uma longa espera, uma gestação planejada por anos, mas saiu - e chegou chegando. A obra é bastarda e inglória apenas no batismo. Foi a primeira vez que o diretor consultou os anais da História para fazer um filme. Escolheu um tema espinhoso, o Nazismo, um assunto bem a seu gosto para esculhambar geral, pintar o sete com a inconsequência que lhe é inerente. Afirmar que o tema é mero pano de fundo não é exagero, porque o roteiro não esmiuça o nazismo, os representantes deste são caricaturas engraçadas e toscas, subordinadas do humor negro de Tarantino, não existe comprometimento com a realidade, apenas com o cinema. O Hitler com o qual nos deparamos é um bufão completo, os olhos saltam-lhe as órbitas e o cuspe espirra na cara de seu interlocutor.
Timing correto é termo inexistente na cartilha tarantinesca. Em um filme de duas horas e meia, ele costurou as tramas dos personagens umas nas outras, como fez vezes antes, provocando o encontro de todos eles em determinado ponto, desfilando com maestria lírica alusões pop e cinematográficas. John Wayne, salto alto, Brian De Palma, Enio Morricone. Por que não usar "Cat People", do David Bowie, em um momento-chave de um enredo que se passa nos anos 40? Sangria glam. Logo de cara, nos presenteia com uma cena de diálogo (que em outro filme seria considerada anormalmente demorada) carregada pela tensão da falta de ação e o preenchimento ameaçador de palavras lentas no ar (contribuem muito o olhar doce do camponês [Denis Menochet] e a excelência cruel do caçador de judeus [Chistoph Waltz]. Prega os olhos na tela até mesmo o mais disléxico dos seres.
Na sequência, os párias do Exército americano esboçam suas táticas de caça aos nazis, uma delas é um requinte ensinado anos antes pelos índios: escalpelar - a ordem é sublinhada pelo sotaque caipira escrachado (muito bom) de Brad Pitt. Na minha opinião, o termômetro CPM (carnificina por minuto) estourou neste filme, reduzindo a dupla Vincent Vega e Jules Winnfield a picaretas empanturrados de hambúrguer e sujos de sangue de catchup. E se não há Uma Thurman, Tarantino tira da cartola não uma, mas duas musas loiras: a dúbia estrela de cinema vivida por Diane Kruger e a judia Shosanna, insossa na pele de Mélanie Laurent; aliás, a história é enriquecida pelo drama poético desta personagem, rola um perfume nouvelle vague no ar.
O bacana não são só as inúmeras referências ao cinema e à cultura pop de praxe, em "Bastardos Inglórios" o cinema em si desempenha um papel mágico: a atriz Bridget Von Hammersmark ajuda a trupe de desgraçados, cuja formação conta com um crítico de filmes. Shosanna é dona de um cinema, onde acontecerá a estréia do filme sobre o herói de guerra encarnado por Daniel Brühl - o bom moço revolucionário de "Adeus Lênin" e "Edukators" passou para o Lado Negro da Força - e todos estarão no mesmo recinto, cada qual com seu propósito vingativo, o alvo é o mesmo. A revanche dos judeus.
A cena da première foi a mais marcante por três razões: 1) a tentativa frustrada de Apache (Pitt) imitar um italiano, parecia um Don Vito Corleone da comédia; 2) durante a sessão, o rosto estampado na tela, os rolos de filme como arma letal, as labaredas de fogo, violentamente bonito; 3) remete ao clímax de um dos meus filmes prediletos, "Carrie, a Estranha".
Se você que está lendo este texto e ainda não assistiu, acabei de estragar (grande) parte da diversão. Então tá bom, tchau! Hahaha.
E não foi diferente com o recém nascido. Foi uma longa espera, uma gestação planejada por anos, mas saiu - e chegou chegando. A obra é bastarda e inglória apenas no batismo. Foi a primeira vez que o diretor consultou os anais da História para fazer um filme. Escolheu um tema espinhoso, o Nazismo, um assunto bem a seu gosto para esculhambar geral, pintar o sete com a inconsequência que lhe é inerente. Afirmar que o tema é mero pano de fundo não é exagero, porque o roteiro não esmiuça o nazismo, os representantes deste são caricaturas engraçadas e toscas, subordinadas do humor negro de Tarantino, não existe comprometimento com a realidade, apenas com o cinema. O Hitler com o qual nos deparamos é um bufão completo, os olhos saltam-lhe as órbitas e o cuspe espirra na cara de seu interlocutor.
Timing correto é termo inexistente na cartilha tarantinesca. Em um filme de duas horas e meia, ele costurou as tramas dos personagens umas nas outras, como fez vezes antes, provocando o encontro de todos eles em determinado ponto, desfilando com maestria lírica alusões pop e cinematográficas. John Wayne, salto alto, Brian De Palma, Enio Morricone. Por que não usar "Cat People", do David Bowie, em um momento-chave de um enredo que se passa nos anos 40? Sangria glam. Logo de cara, nos presenteia com uma cena de diálogo (que em outro filme seria considerada anormalmente demorada) carregada pela tensão da falta de ação e o preenchimento ameaçador de palavras lentas no ar (contribuem muito o olhar doce do camponês [Denis Menochet] e a excelência cruel do caçador de judeus [Chistoph Waltz]. Prega os olhos na tela até mesmo o mais disléxico dos seres.
Na sequência, os párias do Exército americano esboçam suas táticas de caça aos nazis, uma delas é um requinte ensinado anos antes pelos índios: escalpelar - a ordem é sublinhada pelo sotaque caipira escrachado (muito bom) de Brad Pitt. Na minha opinião, o termômetro CPM (carnificina por minuto) estourou neste filme, reduzindo a dupla Vincent Vega e Jules Winnfield a picaretas empanturrados de hambúrguer e sujos de sangue de catchup. E se não há Uma Thurman, Tarantino tira da cartola não uma, mas duas musas loiras: a dúbia estrela de cinema vivida por Diane Kruger e a judia Shosanna, insossa na pele de Mélanie Laurent; aliás, a história é enriquecida pelo drama poético desta personagem, rola um perfume nouvelle vague no ar.
O bacana não são só as inúmeras referências ao cinema e à cultura pop de praxe, em "Bastardos Inglórios" o cinema em si desempenha um papel mágico: a atriz Bridget Von Hammersmark ajuda a trupe de desgraçados, cuja formação conta com um crítico de filmes. Shosanna é dona de um cinema, onde acontecerá a estréia do filme sobre o herói de guerra encarnado por Daniel Brühl - o bom moço revolucionário de "Adeus Lênin" e "Edukators" passou para o Lado Negro da Força - e todos estarão no mesmo recinto, cada qual com seu propósito vingativo, o alvo é o mesmo. A revanche dos judeus.
A cena da première foi a mais marcante por três razões: 1) a tentativa frustrada de Apache (Pitt) imitar um italiano, parecia um Don Vito Corleone da comédia; 2) durante a sessão, o rosto estampado na tela, os rolos de filme como arma letal, as labaredas de fogo, violentamente bonito; 3) remete ao clímax de um dos meus filmes prediletos, "Carrie, a Estranha".
Se você que está lendo este texto e ainda não assistiu, acabei de estragar (grande) parte da diversão. Então tá bom, tchau! Hahaha.

Serge Gainsbourg anda em alta ultimamente. Em altos brados nos meus fones enquanto ando sem cuidado pelas ruas, perigando ser atropelada tal qual Melody Nelson (já chego nela). Felizmente, o louco Serge tem recebido o devido foco de luz que quase nunca lhe é dirigido. Tema de exposição no Sesc, homenageado pela ex, Jane Birkin, com a Orquestra Imperial, evocado em Grains de Beautè, da Céu, celebrado no projeto de Scandurra e Bárbara Eugênia (Les Provocateurs), seu sobrenome carregado pela primogênita nas telas de Lars Von Trier. Bom, muito bom. Mas agora não vou escrever sobre o gênio multifacetado, quero falar de um de seus feitos, "Histoire de Melody Nelson", uma viagem de 1971. Curto, e longo o bastante para te engolir, direto ao ponto, 7 faixas, 28 minutos; contudo gosto de enxergá-lo como uma peça singular dividida em atos, creio que ele foi feito para ser encarado assim mesmo, é um desses álbuns conceituais. A história é simples e amalucada, o romance imaginário entre ele e a lolita que atende pelo nome de Melody Nelson. Gainsbourg era dono de uma voz grave, especialista no cantar falado ou no falar cantado, sussurra como ninguém - e em francês. Parei. Até aí já rende um puta climão. Soma-se a isto o tema irresistivelmente pervertido e a maestria de seu desenrolar, construída com a beleza dos versos e as melodias cinematográficas; mesmo sem entender francês, dá muito bem para sacar as reviravoltas do enredo, seus pontos mais sinistros e românticos, só de ouvir a música. Sua musa na época (e futura esposa) Jane Birkin participa, encarna a personagem principal, sua voz doce poucas vezes aparece, embora Melody esteja onipresente. Tem a imprevisibilidade de um jazz e o tom de uma banda funk, mas também tem uma orquestra. Só que soa mais como um disco de rock, estranhamente. Há muito suspense ali, e mesmo que o cara tentasse fugir, o erotismo estaria intrínseco em qualquer coisa que ele criasse, culpe-o por ser parisiense ou por ser filho da libertação sexual. Eu acho que ele foi um maluco mesmo, um maluco tarado e bêbado. Então ele faz esse disco que é inteiro sobre uma garotinha por quem ele é apaixonado de forma doentia, à primeira vista - fortes linhas de baixo deixam transparecer a embriaguez e os devaneios automobilísticos do motorista, nada o perturba, vento nos cabelos - ele quase a mata com as rodas de seu descontrolado Rolls Royce, o cabelo dela é cor de fogo e ele morre de paranóia só de imaginá-la mentindo; o instante mais feliz de uma existência em um hotel com sua ninfa, consumindo-a sob os olhares acusatórios de santos barrocos e anjos dourados - uma das partes sugere psicodelicamente o que se passa no quarto - e tudo vai caminhando gradativamente para o final épico, sob as idênticas linhas do baixo no início, o encerramento de 14 outonos e 15 primaveras com a queda de um avião. Ele lamenta a morte de seu único amor - as guitarras e os coros avançam num emaranhado caótico - e enlouquece imaginando por onde o espírito dela perambula, talvez o corpo estilhaçado dela tenha servido de oferenda para alguma tribo, pensa. Ah! Melody!






