domingo, 25 de outubro de 2009

"Cinema-verdade? Prefiro o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade." (Federico Fellini)

"Porque adoramos fazer filmes!!!"
Este é o mantra repetido tomada após tomada no templo de Quentin. Ele é o guru, e o elenco, seus devotos. Um clima religiosamente imposto por esse cara que, na época em que servia de balconista de locadora, aparentemente deu um jeito de colar todo o acervo de fitas em sua cabeça, então tornou-se uma enciclopédia ambulante, memorizando detalhes de filmes B dos quais quase nenhuma viv'alma recorda-se, ou seja, nosso futuro cineasta era apontado como um sem-vida social em sua tenra idade. Mas quem liga? Hoje somos só aplausos. Pois sua compulsão megalomaníaca por filmes e sua criatividade ensandecida casaram-se cedo, gerando alguns filhos de muito sucesso, são estes "Pulp Fiction" e "Kill Bill 1 e 2"; uns bons, mas não tão lembrados, "Cães de Aluguel", "Prova de Morte"; e alguns bastardinhos, é o caso de "Jackie Brown" e "Drink no Inferno" (deste ele nem é o verdadeiro pai, mas influenciou bastante na criação). No entanto, para não ser injusta com a prole, cabe dizer que El Capitano colocou muito amor em cada um deles, o amor incondicional à 7ª Arte.

E não foi diferente com o recém nascido. Foi uma longa espera, uma gestação planejada por anos, mas saiu - e chegou chegando. A obra é bastarda e inglória apenas no batismo. Foi a primeira vez que o diretor consultou os anais da História para fazer um filme. Escolheu um tema espinhoso, o Nazismo, um assunto bem a seu gosto para esculhambar geral, pintar o sete com a inconsequência que lhe é inerente. Afirmar que o tema é mero pano de fundo não é exagero, porque o roteiro não esmiuça o nazismo, os representantes deste são caricaturas engraçadas e toscas, subordinadas do humor negro de Tarantino, não existe comprometimento com a realidade, apenas com o cinema. O Hitler com o qual nos deparamos é um bufão completo, os olhos saltam-lhe as órbitas e o cuspe espirra na cara de seu interlocutor.

Timing correto é termo inexistente na cartilha tarantinesca. Em um filme de duas horas e meia, ele costurou as tramas dos personagens umas nas outras, como fez vezes antes, provocando o encontro de todos eles em determinado ponto, desfilando com maestria lírica alusões pop e cinematográficas. John Wayne, salto alto, Brian De Palma, Enio Morricone. Por que não usar "Cat People", do David Bowie, em um momento-chave de um enredo que se passa nos anos 40? Sangria glam. Logo de cara, nos presenteia com uma cena de diálogo (que em outro filme seria considerada anormalmente demorada) carregada pela tensão da falta de ação e o preenchimento ameaçador de palavras lentas no ar (contribuem muito o olhar doce do camponês [Denis Menochet] e a excelência cruel do caçador de judeus [Chistoph Waltz]. Prega os olhos na tela até mesmo o mais disléxico dos seres.

Na sequência, os párias do Exército americano esboçam suas táticas de caça aos nazis, uma delas é um requinte ensinado anos antes pelos índios: escalpelar - a ordem é sublinhada pelo sotaque caipira escrachado (muito bom) de Brad Pitt. Na minha opinião, o termômetro CPM (carnificina por minuto) estourou neste filme, reduzindo a dupla Vincent Vega e Jules Winnfield a picaretas empanturrados de hambúrguer e sujos de sangue de catchup. E se não há Uma Thurman, Tarantino tira da cartola não uma, mas duas musas loiras: a dúbia estrela de cinema vivida por Diane Kruger e a judia Shosanna, insossa na pele de Mélanie Laurent; aliás, a história é enriquecida pelo drama poético desta personagem, rola um perfume nouvelle vague no ar.

O bacana não são só as inúmeras referências ao cinema e à cultura pop de praxe, em "Bastardos Inglórios" o cinema em si desempenha um papel mágico: a atriz Bridget Von Hammersmark ajuda a trupe de desgraçados, cuja formação conta com um crítico de filmes. Shosanna é dona de um cinema, onde acontecerá a estréia do filme sobre o herói de guerra encarnado por Daniel Brühl - o bom moço revolucionário de "Adeus Lênin" e "Edukators" passou para o Lado Negro da Força - e todos estarão no mesmo recinto, cada qual com seu propósito vingativo, o alvo é o mesmo. A revanche dos judeus.

A cena da première foi a mais marcante por três razões: 1) a tentativa frustrada de Apache (Pitt) imitar um italiano, parecia um Don Vito Corleone da comédia; 2) durante a sessão, o rosto estampado na tela, os rolos de filme como arma letal, as labaredas de fogo, violentamente bonito; 3) remete ao clímax de um dos meus filmes prediletos, "Carrie, a Estranha".

Se você que está lendo este texto e ainda não assistiu, acabei de estragar (grande) parte da diversão. Então tá bom, tchau! Hahaha.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Pegue seu Rolls Royce e vá...

Serge Gainsbourg anda em alta ultimamente. Em altos brados nos meus fones enquanto ando sem cuidado pelas ruas, perigando ser atropelada tal qual Melody Nelson (já chego nela). Felizmente, o louco Serge tem recebido o devido foco de luz que quase nunca lhe é dirigido. Tema de exposição no Sesc, homenageado pela ex, Jane Birkin, com a Orquestra Imperial, evocado em Grains de Beautè, da Céu, celebrado no projeto de Scandurra e Bárbara Eugênia (Les Provocateurs), seu sobrenome carregado pela primogênita nas telas de Lars Von Trier. Bom, muito bom. Mas agora não vou escrever sobre o gênio multifacetado, quero falar de um de seus feitos, "Histoire de Melody Nelson", uma viagem de 1971. Curto, e longo o bastante para te engolir, direto ao ponto, 7 faixas, 28 minutos; contudo gosto de enxergá-lo como uma peça singular dividida em atos, creio que ele foi feito para ser encarado assim mesmo, é um desses álbuns conceituais. A história é simples e amalucada, o romance imaginário entre ele e a lolita que atende pelo nome de Melody Nelson. Gainsbourg era dono de uma voz grave, especialista no cantar falado ou no falar cantado, sussurra como ninguém - e em francês. Parei. Até aí já rende um puta climão. Soma-se a isto o tema irresistivelmente pervertido e a maestria de seu desenrolar, construída com a beleza dos versos e as melodias cinematográficas; mesmo sem entender francês, dá muito bem para sacar as reviravoltas do enredo, seus pontos mais sinistros e românticos, só de ouvir a música. Sua musa na época (e futura esposa) Jane Birkin participa, encarna a personagem principal, sua voz doce poucas vezes aparece, embora Melody esteja onipresente. Tem a imprevisibilidade de um jazz e o tom de uma banda funk, mas também tem uma orquestra. Só que soa mais como um disco de rock, estranhamente. Há muito suspense ali, e mesmo que o cara tentasse fugir, o erotismo estaria intrínseco em qualquer coisa que ele criasse, culpe-o por ser parisiense ou por ser filho da libertação sexual. Eu acho que ele foi um maluco mesmo, um maluco tarado e bêbado. Então ele faz esse disco que é inteiro sobre uma garotinha por quem ele é apaixonado de forma doentia, à primeira vista - fortes linhas de baixo deixam transparecer a embriaguez e os devaneios automobilísticos do motorista, nada o perturba, vento nos cabelos - ele quase a mata com as rodas de seu descontrolado Rolls Royce, o cabelo dela é cor de fogo e ele morre de paranóia só de imaginá-la mentindo; o instante mais feliz de uma existência em um hotel com sua ninfa, consumindo-a sob os olhares acusatórios de santos barrocos e anjos dourados - uma das partes sugere psicodelicamente o que se passa no quarto - e tudo vai caminhando gradativamente para o final épico, sob as idênticas linhas do baixo no início, o encerramento de 14 outonos e 15 primaveras com a queda de um avião. Ele lamenta a morte de seu único amor - as guitarras e os coros avançam num emaranhado caótico - e enlouquece imaginando por onde o espírito dela perambula, talvez o corpo estilhaçado dela tenha servido de oferenda para alguma tribo, pensa. Ah! Melody!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

De como já curti muito o KoL


Em alguns ínfimos momentos, percebe-se em “Only By the Night”, último disco do Kings of Leon, apenas o fragmento, o eco do que já foi a marca registrada do KoL, a levada da guitarra e baixo caipirescas e retrô, o sotaque carregado e esganiçado de Caleb. O antecessor, “Because of Times”, já anunciava o começo da mudança no som. O quarto trabalho dos meninos do Tennessee não é de todo ruim, mas decaiu muito. Há faixas que são boas, é o caso de “17” e “Revelry”. Não que eles deveriam ficar no mesmíssimo lance pra sempre, a pegada caipira etc. Mas tá tudo muito pasteurizado. “Use Somebody” é ruim de doer, alguém explica o que é aquele coro do Jared e do Matthew (“ôOoOoôoOÔ)? E quando eu vi o clipe mudei de canal na hora. Foi triste ver a mudança drástica na aparência dos caras, um deles de cabelinho espetado com gel. Tudo bem, o estilo de antes nada mais era do que um visual chupado dos anos setenta com toques da roça, mas mesmo o look não-inédito e já com pretensão de galãs era melhor do que isto que vemos agora, uns vendidos escancarados. O disco é decepcionante, é comercial demais. O que eu quero dizer é: foi tão legal ouvir pela primeira vez músicas como “Milk” (de Aha Shake Heartbreak) e “Spiral Staicase” (de Youth and Young Manhood). Causavam estranheza no início, eram divertidas e inusitadas, e ainda hoje não caem no óbvio. A primeira começa com um agoniado lamento de Caleb: “Saaaalty leeeeaaaave, staaaay for meeee”, que me transportava diretamente para algum cenário sulista dos EUA. E na segunda, só a guitarra já dá conta do recado, vertiginosa. Os irmãos [e primo] Followill são bons, ou o produtor deles (Antonio Petraglia) é muito bom, enfim, há indícios fortíssimos de que os meninos são apenas uma boy band fabricada, o que é totalmente plausível. Mas os dois últimos álbuns, em especial o do ano passado, me passa, ou melhor, grita a impressão de que trata-se de um comunicado explícito: “Queremos vender discos, queremos ser um Killers, um U2, lotar estádios, sem nos esforçar para sairmos do esperado, do confortável”. Eles entraram para o rol de grupos pretensiosos e chatos, vide Coldplay e Killers. Cansei dessa falsidade.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Enfim, Céu!


Vazou na internet o tão aguardado segundo disco da Maria do Céu, também produzido por Beto Villares e Gustavo Lenza. Já tinha sentido um gostinho só pelo EP “Cangote”. Lançado pelo selo Urban Jungle e aqui no Brasil pela gigante Universal, o álbum “Vagarosa” 'baixou' aqui em casa assim que soube do vazamento. Em plena semana do rock, abandonei-o. Desculpe, rock, mas feito bocejo o disquinho me pegou.

“Vagarosa” é um conjunto de timbres dos mais variados, com tanta precisão e originalidade, que... com alegria eu digo: é exatamente o que eu precisava ouvir. E apreciar, porque é um disco de nuances muitas. E não é pra menos: além da banda impecável de Céu (Bruno Buarque, Lucas Martins e DJ Marco), a paulistana conta com as participações de outros talentos, parceiros e amigos de trabalhos paralelos, entre eles Curumin, Siba, Guizado e Fernando Catatau. As chegadas Anelis Assumpção e Thalma de Freitas dividem com Céu os versos e a autoria da lânguida “Bubuia”.

Desta vez, o trabalho da moça tem um cavaquinho e a doçura de sua voz como ponto de partida. Em contraponto com esta leveza, a letra desta primeira faixa fala sobre 'uma disritmia': “instigado num lampejo despertado pelo beijo que o baile parou pra ver”, essa é “Sobre o Amor e seu Trabalho Silencioso”.

Como prometido, tá lá a bem-vinda presença de Luiz Melodia em “Vira-Lata”. Nesse encontro sambista (o samba ganhou um carinhoso espaço neste CD, mais do que no anterior) Céu avisa: “hoje eu vou me achar e depois me perder”, enquanto Melodia veste a carapuça do vira-lata em questão. É uma bela canção, enriquecida pela combinação de flauta, trombone, sax e outros.

“Rosa Menina Rosa”, releitura do Jorge Ben e uma singela homenagem à filhinha da artista, tem ecos de M.I.A. no começo. A paulistana fez bonito ao regravar com frescor esse clássico de 63, tendo a elegância de não cair no simples cover (e isso é possível quando falamos de Céu?) que outras cantoras adoram fazer por aí, e para isso, chamou a rapaziada do Los Sebozos Postizos, mestres em releituras estilosas de Jorge.

Já as referências à música africana e jamaicana não escaparam, não. “Espaçonave” começa com uma percussão esperta de Bruno Buarque, que remete a Fela Kuti, e em seguida desagua na deliciosa guitarra de Catatau e veja só, temos um funk, daqueles dos bons, sessentões. “Cangote”, então, é dona da levada dub-reggae mais viciante dos últimos tempos. Mas a canção sedutora do álbum mesmo é “Grains de Beauté”, um convite irresístivel ao jogo de contar pontos.

E falando em africana, assim como em “Rainha”, canção do primeiro álbum na qual o continente afro personifica-se em mulher forte, soberana em meio a suas fragilidades e mazelas, “Comadi” representa todas as mulheres que balançam, mas não caem - lutam.

Climas vagarosos, etéreos, sons acústicos e eletrônicos em uma união harmônica. Parece simples no começo, mas depois se revela complexo e detalhista. É só mais uma prova do talento de Céu pra quem ainda duvidava. E mais um alento para a música brasileira atual. Yes!

sábado, 4 de julho de 2009

MJ


Sentia medo da voz do Vincent Price em "Thriller". Mesmo assim, voltava a colocar o disco na vitrola para ouvir, mais uma vez, aquela história cantada. Sim, os vinis ainda dominavam - os cds apenas ameaçavam sua invasão. Embora eu não entendesse as palavras em inglês, elas faziam-me imaginar as seqüências de um enredo tétrico, e aquilo me fascinava. Assim como encantou anos antes o dono do LP, meu irmão.

E o canal que costumava, agora não mais, passar clipes sem parar, exibia incansavelmente os mais-mais daquela época, todos do álbum "Dangerous". Impossível citar um só: a rainha egípcia apaixonada em "Remember the Time", Michael Jordan fazendo o que sabe melhor em "Jam", Naomi Campbell fazendo a sexy com Michael em "In the Closet", os rostos se metamorfoseando em "Black or White". Era bom ser criança e assistir a esses clipes. E jogar o 'Moonwalk' no mega drive.

Suas excentricidades, "Michaaaeeeel, eles não ligam pra gente!", os passos inigualáveis, o moonwalk, os gritinhos, a voz doce, "I know, I know"... Nunca haverá ninguém remotamente parecido com Michael Jackson. E Justin, Chris Brown, Britney e cia. só têm a agradecer à existência dele, do contrário, nem ousariam começar suas carreiras.

Abaixo, o vídeo de "Say, Say, Say", parceria dele com o Macca. Parceria breve, mas genial enquanto durou:

http://www.youtube.com/watch?v=kqBgn_sN94Y

Descanse em paz, Michael. (1958 - 2009)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Tá com fome? Tô.

É difícil. Sabe quando você chega da boate e tá com aquela larica? Ou quando tá de bobeira em casa, na larica, sem ninguém pra te socorrer? Ou então mora sozinho e tem que se virar sozinho mesmo, na hora L(arica)? Ou simplesmente, a qualquer hora do dia, sem avisar, a larica chega e alerta que não quer esperar você ir ao mercado e preparar um prato sofisticado (leia-se prato que demora mais de meia hora pra ficar pronto)? Pois bem, nestas emergências da vida, você não vai – eu, pelo menos – não vou nem cogitar as receitas complexas da Nigella, do Alex Atala ou do Jamie Oliver. Porque eu não tenho aspargos frescos no jardim do quintal, desconheço a arte de gratinar e o mais importante: não tenho tempo e/ou saco para desenvolver a chamada refeição de prestígio. Muito menos na hora do aperto, né não?

E eis que descubro um programa de culinária que fala comigo. Um dos melhores, mesmo. É o “Larica Total”, apresentado pelo Paulo de Oliveira, um figura que defende a culinária da guerrilha, o faça você mesmo em 5 minutos. O lema aqui é inove, crie, ouse, não tenha medo do erro. Saque o catchup, a mostarda, o sal, o pão amanhecido, a sobra que tiver e vai com fé. Na cozinha charmosa de Paulo vê-se a pia, quase sempre abarrotada de louça, e a geladeira, precariamente servida dos restos. Munido com pouco, mas o suficiente, a cada episódio o homem nos presenteia com mais uma de suas receitas milagrosas, tais como Hamburguer Caseiro, Frango Total-Flex, Moqueca de Ovo, e por aí vai. Esqueça o cordeiro ao molho de Lambrusco, limões sicilianos e paella com frutos-do-mar do Mediterrâneo. O programa retrata a vida real, sem frescuras, com a única preocupação de atender ao pedido gutural que vem de dentro: a fome fatal.

Após uma saudade, uma ressaca, uma ida ao supermercado, uma nova paixão ou um passeio pelo centro do Rio, o carioca vai à cozinha, inspirado por estes acontecimentos, ao mesmo tempo que nos envolve com sua sabedoria acerca da árdua vida do brasileiro, as maravilhas de se arriscar no dia a dia e sobre a beleza do simples. Com veemência, ele avisa: “Sempre em casa: água, cerveja, sal, alho e cebola. Sempre, sempre, sempre. Pro resto da vida”. Inspirador. Aliás, o Paulo é um indivíduo inspirador e fundamentalmente brasileiro em sua essência. Solteirão que mora sozinho, trabalha, é adepto das gambiarras, festeiro de fim de semana, expert em excessos boêmios, mas que não perde o otimismo ao desejar um bom dia ao sol.

Larica Total passa no Canal Brasil, às sextas, 00:30. Ou seja, osso de acompanhar sempre. Mas não seja por isso, no site http://www.laricatotal.com.br/, tem o link para boa parte dos episódios. Tem ainda, mais infos sobre o programa e sobre o Paulo Tiefenthaler, que encarna o Paulo lariqueiro. Divirta-se e aprenda.

E já que tô no embalo, aí vai uma receita que uma amiga me ensinou, que sempre me salva:

Miojo dos Deuses

Ingredientes:

1 pacote de miojo
Requeijão a gosto
Manteiga a gosto
Orégano a gosto
Tempero do miojo a gosto

Coloque a água para ferver. Quando ferver, deposite o macarrão instantâneo e deixe-o lá por 3 minutos. Quando ficar pronto, jogue a água fora. Adicione um pouco de manteiga, só pra dar aquele deslize. Coloque tempero à vontade. Orégano também. O mesmo serve pro requeijão. Misture tudo e devore! Corage!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

As Vozes do Passado

A comunidade canadense de Langley, nos anos 70, era totalmente provinciana. As pessoas eram demasiado religiosas, era comum andar a cavalo e só existia um único modesto cinema. Em um daqueles dias pacatos, as crianças da escola British Columbia deram de cara com seu mais novo professor de música. Cabeludo e barbudo, Hans Fenger usava camisa florida ao invés de gravata.

O cara descolado só queria um emprego razoável para poder sustentar sua família. Não sabia nem por onde começar com aqueles jovens estudantes, pois nunca havia lecionado música a quem quer que fosse, tampouco possuía formação musical. Sua escola foram as bandas de rock que teve. A única certeza que tinha era a de fazer aqueles alunos enxergarem a música do modo como ele próprio a via: com paixão vinda da alma.

Grande fã de Beach Boys, se deu conta de que aquelas melodias ensolaradas e harmoniosas cairiam muito bem nas vozes juvenis de seus recém-adquiridos alunos. De repente, as aulas de música não resumiam-se mais a cantar canções infantilóides e tediosas, mas a aprender letras de David Bowie e Beatles. E gostaram disso. Eram crianças sensíveis àquelas músicas melancólicas e poderosas – estavam descobrindo, aos poucos, a musicalidade dentro de si mesmos.

Um belo dia, professor e turma reuniram-se no ginásio do colégio e gravaram uma série de clássicos do rock. Apenas pela diversão, pretensão comercial zero. Seriam feitas cópias apenas para os familiares. O que se passou ali, durante aquele registro, foi uma experiência emocionante, praticamente um culto para quem estava presente. Tudo registrado numa fita simples, em equipamentos típicos da época. Alguns anos depois, a compilação alojou-se em algum lugar remoto na memória dos envolvidos, assim como a imagem fugidia dos anos de colégio, ecos de um pátio fervilhando de vozes, que, de repente, se vê vazio.

Décadas mais tarde, um membro da Victoria Record e rato de sebos, Brian Linds, pegou em mãos um bolachão dentre outras tantas pilhas de velharias. A capa, uma montagem de vários rostos de crianças antigas em preto e branco, o convidou a dar uma ouvida. E o que ouviu causou-lhe espanto. Como ele, as canções chegaram-me aos ouvidos, mas sob a menos emocionante forma de um fácil MP3.

A mim, a primeira audição causou assombro, como quando alguém fica ao descobrir algo inesperadamente valioso e que guarda consigo um certo encanto. O primor das vozes e demais técnicas de canto jamais foram exigidas daquelas crianças; há falhas, e é isso que torna a obra fascinante. “Space Oddity”, do David Bowie, poderia pertencer à trilha de um filme de terror (ouça aqui), ainda que completamente bela, com arranjos incríveis, que foram elogiados pelo próprio Camaleão. E o professor sabia do que falava: “God Only Knows” e “Good Vibrations”, além de outras pérolas dos Beach Boys, encaixaram-se de maneira sublime às vozes em uníssono. “The Long and Winding Road”, dos Beatles, não sei bem se cantada por um menino ou por uma menina, é outra faixa que comove. Sério.

O projeto, que data de 76-77, foi rapidamente esquecido, até Brian Linds achar o disco no sebo e mandar para Irwin Chusid, um apresentador de rádio, o qual, por sua vez, batalhou para que o álbum fosse relançado. Após dez rejeições de dez gravadoras diferentes, o selo independente Bar/None Records incumbiu-se da tarefa inédita de colocá-lo nas prateleiras das lojas.

E foi assim que o coral de vozes rurais em formação pôde alcançar os ouvidos mais distantes, como os meus, além das próprias crianças, que cresceram, cresceram e quase esqueceram da sensação daquele dia.

Curiosidades: Claro que a história virou documentário, realizado pela VH1.
E a história inspirou o filme “Escola de Rock”, estrelado por Jack Black.

The Langley School Music Project:
1. Venus and Mars/Rock Show (Paul McCartney &.Wings)
2. Good Vibrations (The Beach Boys)
3. God Only Knows (The Beach Boys)
4. Space Oddity (David Bowie)
5. The Long and Winding Road (The Beatles)
6. Band On The Run (Paul McCartney & Wings)
7. I'm Into Something Good (Earl-Jean/Herman's Hermits)
8. In My Room (The Beach Boys)
9. Saturday Night (Bay City Rollers)
10. I Get Around (The Beach Boys)
11. Mandy (Barry Manilow)
12. Help Me, Rhonda (The Beach Boys)
13. Desperado (The Eagles)
14. You're So Good To Me (The Beach Boys)
15. Sweet Caroline (Neil Diamond)
16. To Know Him Is To Love Him (Teddy Bears)
17. Rhiannon (Fleetwood Mac)
18. You're Sixteen (Johnny Burnette/Ringo Starr)
19. Little Deuce Coupe (The Beach Boys)
20. Wildfire (Michael Martin Murphy)
21. Calling Occupants of Interplanetary Craft (The Recognized Anthem of World Contact.Day)(Klaatu/The Carpenters)